Mostrar mensagens com a etiqueta roubar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta roubar. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Discriminação

Caros amigos, como já devem ter percebido, pela leitura dos textos aqui publicados, eu sou uma pessoa bastante calma, que não gosta de reclamar nem de levantar ondas, um rapaz modesto e afável, mas, nestes últimos tempos, há uma coisa que me tem chateado, fatigado, irritado até! Neste momento, encontro-me vítima da mais pura e vil e mesquinha das discriminações! É verdade, amigos, eu, e até me custa dizê-lo... eu... eu... eu NUNCA FUI ASSALTADO!

È a mais pura das verdades, sou vítima de discriminação social por parte dos nossos vândalos! Sou um excluído do mundo do crime! Um renegado do universo das vítimas de assaltos! Nunca fui abordado por um ladrão, aliás, nunca um bandido sequer me dirigiu a palavra. Nunca um meliante olhou para mim e pensou : “Por Deus! Ali vai um excelso cavalheiro que, pela sua postura altiva e aspecto nobre, aparenta possuir vários bens. Parece-me que a divina providência o colocou no meu caminho para ter eu a honra de o despojar de tais valores.”. Por Deus!, nem sei se é assim que funciona o pensamento criminoso... não conheço o seu léxico... nada!

Todos os meus amigos já foram assaltados, muitos deles foram-no mais que uma vez, enquanto eu... nada... completamente à margem! A minha auto-estima anda pelas ruas da amargura...

Ainda há dias, enquanto bebia uma cerveja com um grupo de amigos, veio baila o aumento da taxa de criminalidade, os meus amigos começaram a falar das vezes que foram assaltados e eu, calado, a um canto, sozinho, tentando passar despercebido... até que um deles me faz a humilhante pergunta “Óh Maionese, tu, que para além de te vestires tão bem és também possuidor de tão estonteante beleza (os meus amigos falam todos muito bem), já deves ter sido, obviamente, assaltado muitas vezes. Como foi?”. Silêncio... os olhos todos poisados em mim... o chão a fugir de baixo dos meus pés... os lábios começam a ficar secos... sinto a vermelhidão a assolar-me o rosto e, envergonhado, digo “eu nunca fui assaltado...”. Foi a gargalhada geral. “Ahahaha! O Maionese nunca foi assaltado!”, “Ahahaha! Os criminosos não te têm em conta!”, “Hehehe! Nem os bandidos te pegam!”. Ainda tentei argumentar que já me tinham roubado o isqueiro e que, uma vez, um taxista se enganou e me deu troco a menos, mas ninguém me levou a sério. Levantaram-se da mesa e foram-se embora a rir.

Nessa mesma noite, vesti-me com as roupas mais caras que tenho, levantei 100€ da conta e fui para um beco escuro, na esperança de ser, finalmente, vítima de um roubo. Esperei horas, andei para trás e para a frente, disse alto “espero bem que não me assaltem, tenho a carteira cheia de notas e um telemóvel de ultima geração. Ainda por cima estou desarmado e sozinho!”. Passado um tempo, comecei a ouvir passos, o meu coração disparou, a alegria tomou posse de mim ao ver que se era um homem com um gorro que se aproximava... corri na sua direcção com o telemóvel em punho, preparado para ser roubado. Querem saber o que aconteceu? Ao ver-me a correr para ele, o homem saca da carteira, atira-a ao chão e foge a gritar “fica com tudo, não me faças mal!”.

Mas porque raios é que ninguém me assalta?! Sou menos que os outros? Desde que os meus amigos souberam que nunca fui assaltado, deixei de ser convidado para as suas festas, nunca mais me chamaram para um café e na rua, quando nos cruzamos, mudam para o outro lado. Mesmo as pessoas que não me conhecem parecem perceber que nunca fui roubado, nos cafés, sou sempre o último a ser atendido. Os empregados de mesa já não me mandam piadas e noto que os outros clientes me olham de lado e, por vezes, apontam para mim e sussurram, até no cinema já se recusaram a me vender bilhetes.

Tentei falar com associações de apoio a vítimas de discriminação, mas dizem-me que nada podem fazer, que, legalmente, a discriminação a não-vítimas de assaltos ainda não é reconhecida.

Que país é este? Que sociedade é que, em pleno século XXI ainda discrimina pessoas por não terem sido molestadas por ladrões?

Mas,renasceu em mim a esperança, Novembro será o meu mês! Em Novembro vou, enfim, integrar-me nesta sociedade! Em Novembro, finalmente, a P.S.P. vai fazer greve, os criminosos vão estar à solta, sem polícia para os reprimir e, se tudo correr bem, será o fim do meu calvário! Abençoada P.S.P., que vais tornar possível este assalto.

É nestas alturas que damos graças a Deus por vivermos em Portugal, um país em que, apesar de a taxa de criminalidade continuar a aumentar, a própria polícia decide contribuir para esse aumento. Bendito sejas Portugal!