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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Carlos, o Super Português


Carlos tem por hábito levantar-se por volta das 9 e meia, pois pega ao serviço às 10h. Todos os dias reclama que trabalhar tão cedo é um crime e que não é escravo de ninguém, mas hoje, dia de Portugal, acordou bem humorado. “Finalmente... dia 10!” pensou Carlos ao desligar o despertador, made in China, que marcava 8 horas certas. “Nos feriados é bom acordar cedo, para aproveitar o dia”, murmura ele, muitas vezes, para os colegas.

O feriado de dia 10, dia de Portugal, é especialmente querido para ele, um verdadeiro patriota. Carlos odeia estrangeiros e estrangeirismos. Para ele, o estado degradante da nação deve-se, exclusivamente, “a essa cambada de emigrantes que vem para cá roubar o trabalho aos verdadeiros Portugueses” pensava irritado Carlos.

Mas este dia era dele e dos como ele, “o dia da pátria e dos patriotas” pensou, enquanto abria o seu seu saco de pão Bimbo e espetava duas fatias na sua torradeira Coreana, “nenhum estrangeiro mo vai estragar”

Depois do pequeno almoço, Carlos vestiu-se apressadamente, uns ténis Adidas, t-shirt da Nike e calças Levi's, lavou os dentes com a sua pasta Colgate e saiu de casa, não sem antes se perfumar com o seu Hugo Boss.

Enquanto entrava no seu Seat pensou “tenho mesmo que lavar os vidros do carro, mas também não quero ir gastar dinheiro na lavagem automática do Zé..”. Mais à frente, num semáforo vermelho, apareceu um romeno com uma escova e um balde. 15 minutos depois já se encontrava Carlos no meio da cidade, com os vidros lavadinhos por uns singelos 20 cêntimos. Tentou encontrar um lugar para estacionar, mas não queria gastar dinheiro nos parquímetros. Andou, andou, e nada, até que ao fundo da rua, um arrumador de aparência nórdica lhe faz sinal de que há um lugar livre. Carlos encosta o carro e dá 10 cêntimos ao ucraniano “sempre é mais barato que o parquimetro” pensou.

De seguida, lembrou-se que tinha que comprar pilhas para o comando da tv e também um saca-rolhas, que o dele, comprado há uns largos anos numa feira de artesanato nacional, tinha-se partido. Dirigiu-se então à Baixa, pois lá conhecia uma mega superfície comercial chinesa com preços imbatíveis. Passaram 30 minutos e Carlos já se encontrava numa pastelaria, para tomar a merenda matinal, com as compras ensacadas “1.99 cêntimos... nem foi caro para as pilhas e o saca-rolhas” murmurava consigo mesmo enquanto pedia ao empregado brasileiro um Bollycao.

Depois de passar pelo carro, e deixar o saco com as compras que efectuou nos chineses, Carlos dirigiu-se a um quiosque, onde comprou um maço de Marlboro, e seguiu para o shopping. A sua mãe iria fazer anos dentro de uma semana, assim sendo Carlos iria aproveitar a manhã para lhe comprar o presente de aniversário. Depois de correr a Zara, a Bershka, a Salsa e a Stradivarius, decidiu-se por uma camisola da Benetton. Com isto tudo o seu estômago começava a dar sinal de si. Olhou para o seu relógio, comprado a um marroquino na feira, e constatou que já era meio dia e meia hora.

Subiu então ao andar dos restaurantes, primeiro passou pela Pizza Hut, mas não era isso que lhe apetecia, depois espreitou a Pans & Company... “não, também não é isto”... restaurante Indiano, ÓKilo, “não, já sei... vou ao Macdonalds!”...” Um Big Mac menu com cola”.

Almoço tomado, cigarro fumado... o que fazer? Espreitou o cinema, em exibição estava a “Bela e o Paparazzi” e também o "Iron Man 2". “o cinema português é uma seca... um bilhete para o “Iron Man””. Antes de entrar, Carlos comprou mais uma Cola, pois não gostava de ver filmes a seco.

Terminado o filme, Carlos pegou no seu telemóvel Nokia e ligou para o seu companheiro de luta “então, que fazes?... Óptimo, já aí vou ter!”. 40 minutos depois já se encontrava junto de João, um patriota como ele, no Irish Pub a beber uma Guinness. Falaram de futebol. Carlos afirmava que Messi é o melhor jogador do mundo, já João dizia que este ano Milito tinha sido fantástico. No final ambos concluíram que iriam apoiar a Argentina neste Mundial.

Após mais algumas Guinnes, decidiram ir lanchar. Não estavam com muita fome, por isso foram comer uma chamuça ao Snack Bar Indiano em frente, onde discutiram os problemas da invasão dos produtos espanhóis nos mercados nacionais.

Por fim, por volta da 19 horas separam-se.

Carlos voltava para casa quando se lembrou que não tinha nada para jantar, então, num repente, dirigiu-se ao Lidl, que ficava em caminho e comprou umas pizzas congeladas.
Enquanto jantava, ligou a X-box, comprada já chipada numa loja on-line espanhola que lhe custou menos 60 euros, e jogou um P.E.S.

Por volta das 23 horas desligou jogo e viu a novela brasileira da SIC, que tinha começado a seguir “lá representar sabem os brasileiros” pensou.

De seguida viu o CSI e, por volta da 1 da manhã dirigiu-se para a cama, vestiu o seu pijama favorito, comprado no El Corte Inglés e ajustou o despertador, desgostoso por no dia seguinte voltar ao trabalho.

Antes de dormir ainda exclamou: “se todos os portugueses fizessem como eu, o país estava bem melhor!”.





p.s.- este texto foge um bocado do estilo do blog, mas hoje apeteceu-me diversificar.


terça-feira, 25 de maio de 2010

Globos de Ouro


A certa parte de Os Lusíadas, escreve Camões, na dedicatória a D. Sebastião: “Ouvi: vereis o nome engrandecido / Daqueles de quem sois senhor supremo, / E julgareis qual é mais excelente, / Se ser do mundo Rei, se de tal gente.”. Passados 438 anos, ao ligarmos a Tv e ao vermos os Globos de Ouro apresentados por Barbara Guimarães, ficamos com a certeza que o famoso poeta zarolho sabia do que falava!
Se os Globos de Ouro da Sic não entrarem para os anais da História nacional só pode ser por inveja ou pela mais pura perfídia. Quem é o Vasco da Gama ao pé da Bárbara Guimarães? “Ah e tal, ele descobriu o caminho marítimo para a Índia e enfrentou mares desconhecidos e coiso”... Agora pergunto eu ao excelso leitor que tem o bom gosto de poisar as vistas, cheias de cataratas e remelentas, neste texto: que é que isso interessa? Por acaso o Vasco da Gama faz piadas das quais ninguém se ri? Conseguiria o Vasquito cantar o genérico do Duarte & Companhia e pôr 10.000.000 de pessoas desconfortáveis e constrangidas? Será que o Vává conseguiria parecer mais senil que Bárbara Guimarães?
Enfrentar o Adamastor também eu, óh Vasco! Agora, enfrentar o ridículo de não ter o mínimo jeito para o entretenimento com 3 horas em directo, num vestido vermelho, enquanto transporto no ventre a filha de Manuel Maria Carrilho, eis a minha definição de coragem!
E a passadeira vermelha? Não me venham com coisas pá! (só se forem coisas boas, se forem coisas iguais àquelas com que me vieram no outro dia não vale a pena, que coisas dessas eu já tenho e vocês não querem ver a Maionese ficar azeda, ok?). Se a passadeira vermelha dos Globos de Ouro não é das coisas mais importantes da nossa História, eu não sei o que é! De que outra maneira veríamos as peles do pescoço da Lili Caneças ao mesmo tempo que as pernas da Daniela Ruah? Ou como ouviríamos que os vestidos do nosso Jet 7 (Jet 7, ai ai...), comprados na Zara eram afinal da Ana Salazar e afins? E frases como“esta passadeira não fica nada a dever à americana” proclamada por esse macho latino que é César Augusto Moniz, onde as escutaríamos? Ãh? Onde? Queríamos nós ter inventado isto da passadeira mais cedo na nossa História, mas não, vamos mas é meter-nos num barquito e descobrir terras e continentes por aí! Para quê? Acabámos por não ficar com nenhuma e o Mantorras ficou sem o joelho!
Tivéssemos nós ficado quietos e hoje, em vez da seca que é o Peregrinação, poderíamos ter em Fernão Mendes Pinto o primeiro cronista social do Mundo! Já imagino o Fernão a escrever sobre os acontecimentos da passadeira vermelha (claro que nesta altura o vermelho vinha do sangue de alguém) “Brites de Almeida encantou com a sua pá made in Aljubarrota e mostrou-se elegantemente vestida com um saco de serrapilheira com um buraco para cabeça, do estilista Zeca da Bubónica, já Diogo Cão desfilou com seu gibão de pele de gato de design exclusivo de João Esfolador”. Era bem mais interessante que a história do pirata árabe Coja Acém!
Posto isto, apelo ao futuros historiadores que, aquando da criação dos manuais escolares, substituam o capítulo do 25 de Abril (que, assim como assim, é uma revolução que nos deixa, a todos, um pouco constrangidos por causa da coisa das flores e da liberdade e tal... que acaba por ser um pouco rabicha) por um capítulo dedicado aos gloriosos anos dos Globos de Ouro, que estes sim, trouxeram algo de novo ao país!