Carlos tem por hábito levantar-se por volta das 9 e meia, pois pega ao serviço às 10h. Todos os dias reclama que trabalhar tão cedo é um crime e que não é escravo de ninguém, mas hoje, dia de Portugal, acordou bem humorado. “Finalmente... dia 10!” pensou Carlos ao desligar o despertador, made in China, que marcava 8 horas certas. “Nos feriados é bom acordar cedo, para aproveitar o dia”, murmura ele, muitas vezes, para os colegas.
O feriado de dia 10, dia de Portugal, é especialmente querido para ele, um verdadeiro patriota. Carlos odeia estrangeiros e estrangeirismos. Para ele, o estado degradante da nação deve-se, exclusivamente, “a essa cambada de emigrantes que vem para cá roubar o trabalho aos verdadeiros Portugueses” pensava irritado Carlos.
Mas este dia era dele e dos como ele, “o dia da pátria e dos patriotas” pensou, enquanto abria o seu seu saco de pão Bimbo e espetava duas fatias na sua torradeira Coreana, “nenhum estrangeiro mo vai estragar”
Depois do pequeno almoço, Carlos vestiu-se apressadamente, uns ténis Adidas, t-shirt da Nike e calças Levi's, lavou os dentes com a sua pasta Colgate e saiu de casa, não sem antes se perfumar com o seu Hugo Boss.
Enquanto entrava no seu Seat pensou “tenho mesmo que lavar os vidros do carro, mas também não quero ir gastar dinheiro na lavagem automática do Zé..”. Mais à frente, num semáforo vermelho, apareceu um romeno com uma escova e um balde. 15 minutos depois já se encontrava Carlos no meio da cidade, com os vidros lavadinhos por uns singelos 20 cêntimos. Tentou encontrar um lugar para estacionar, mas não queria gastar dinheiro nos parquímetros. Andou, andou, e nada, até que ao fundo da rua, um arrumador de aparência nórdica lhe faz sinal de que há um lugar livre. Carlos encosta o carro e dá 10 cêntimos ao ucraniano “sempre é mais barato que o parquimetro” pensou.
De seguida, lembrou-se que tinha que comprar pilhas para o comando da tv e também um saca-rolhas, que o dele, comprado há uns largos anos numa feira de artesanato nacional, tinha-se partido. Dirigiu-se então à Baixa, pois lá conhecia uma mega superfície comercial chinesa com preços imbatíveis. Passaram 30 minutos e Carlos já se encontrava numa pastelaria, para tomar a merenda matinal, com as compras ensacadas “1.99 cêntimos... nem foi caro para as pilhas e o saca-rolhas” murmurava consigo mesmo enquanto pedia ao empregado brasileiro um Bollycao.
Depois de passar pelo carro, e deixar o saco com as compras que efectuou nos chineses, Carlos dirigiu-se a um quiosque, onde comprou um maço de Marlboro, e seguiu para o shopping. A sua mãe iria fazer anos dentro de uma semana, assim sendo Carlos iria aproveitar a manhã para lhe comprar o presente de aniversário. Depois de correr a Zara, a Bershka, a Salsa e a Stradivarius, decidiu-se por uma camisola da Benetton. Com isto tudo o seu estômago começava a dar sinal de si. Olhou para o seu relógio, comprado a um marroquino na feira, e constatou que já era meio dia e meia hora.
Subiu então ao andar dos restaurantes, primeiro passou pela Pizza Hut, mas não era isso que lhe apetecia, depois espreitou a Pans & Company... “não, também não é isto”... restaurante Indiano, ÓKilo, “não, já sei... vou ao Macdonalds!”...” Um Big Mac menu com cola”.
Almoço tomado, cigarro fumado... o que fazer? Espreitou o cinema, em exibição estava a “Bela e o Paparazzi” e também o "Iron Man 2". “o cinema português é uma seca... um bilhete para o “Iron Man””. Antes de entrar, Carlos comprou mais uma Cola, pois não gostava de ver filmes a seco.
Terminado o filme, Carlos pegou no seu telemóvel Nokia e ligou para o seu companheiro de luta “então, que fazes?... Óptimo, já aí vou ter!”. 40 minutos depois já se encontrava junto de João, um patriota como ele, no Irish Pub a beber uma Guinness. Falaram de futebol. Carlos afirmava que Messi é o melhor jogador do mundo, já João dizia que este ano Milito tinha sido fantástico. No final ambos concluíram que iriam apoiar a Argentina neste Mundial.
Após mais algumas Guinnes, decidiram ir lanchar. Não estavam com muita fome, por isso foram comer uma chamuça ao Snack Bar Indiano em frente, onde discutiram os problemas da invasão dos produtos espanhóis nos mercados nacionais.
Por fim, por volta da 19 horas separam-se.
Carlos voltava para casa quando se lembrou que não tinha nada para jantar, então, num repente, dirigiu-se ao Lidl, que ficava em caminho e comprou umas pizzas congeladas.
Enquanto jantava, ligou a X-box, comprada já chipada numa loja on-line espanhola que lhe custou menos 60 euros, e jogou um P.E.S.
Por volta das 23 horas desligou jogo e viu a novela brasileira da SIC, que tinha começado a seguir “lá representar sabem os brasileiros” pensou.
De seguida viu o CSI e, por volta da 1 da manhã dirigiu-se para a cama, vestiu o seu pijama favorito, comprado no El Corte Inglés e ajustou o despertador, desgostoso por no dia seguinte voltar ao trabalho.
Antes de dormir ainda exclamou: “se todos os portugueses fizessem como eu, o país estava bem melhor!”.
p.s.- este texto foge um bocado do estilo do blog, mas hoje apeteceu-me diversificar.


