Mostrar mensagens com a etiqueta democracia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta democracia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 8 de junho de 2010

Jornais

Gosto muito de jornais e de revistas, assim como gosto também de furúnculos no rabo e de carne estragada. De entre toda a imprensa escrita, convém referir que nutro especial afeição pela imprensa portuguesa.


Antes de mais, gosto dos nossos jornais porque, em certa medida, os jornais portugueses, funcionam um pouco como a ciência: a sua verdade de hoje é desmentida amanhã, o que nos faz ficar suspensos, na antecipação de saber como a manchete de hoje vai ser estraçalhada amanhã... o que é bem pensado, assim um gajo tem a sensação que está a seguir uma novela, daquelas boas, escritas pelo Tozé Martinho.

Outra coisa que gosto nos jornais é a maneira como lançam humoristas. É de louvar! Em tempo de escassa aposta na ficção humorística nacional, por parte das televisões, é aqui, no papel, que muitos humoristas exercem a sua profissão. O que eu me ri hoje ao ler, no Correio da Manhã, a peça que a humorista Vânia Nunes quis passar por jornalismo: “"O facto de ser virgem não me impede de vir ao Salão Erótico", revelou Margarida Menezes, sorridente. Considerada uma rapariga "sem preconceitos", a presidente do Clube das Virgens assistiu atentamente aos espectáculos de striptease, viu um filme pornográfico a três dimensões e deu uma espreitadela nos objectos sexuais que estavam à venda.”. É ou não é uma piada brutal?! Ãh? Ahahahahah! Que riso! Toda a construção da piada é muito boa, diga-se de passagem. Ora vejam: primeiro a inversão da Margarida Menezes é muito bem conseguida; depois, o facto de um jornal em tempo de crise social, de crise financeira e de crise política, no tempo em que metade do Oceano está carregado de petróleo que, parecendo que não, até mata meia dúzia de espécies, no tempo em que uma Inspectora da PJ é acusada de corrupção, ter como notícia a Presidente do Clube das Virgens na Feira Erótica; e, por fim, o pastiche dos livros da saudosa Anita. Quem não se lembra do Anita vai à Praia, Anita Vai ao Zoológico, e.t.c.? Pois aqui, Vânia Nunes, num acesso de criatividade, aproveita o formato e escreve o Margarida Menezes vai Ao Salão Erótico. Muito boa esta graçola da Vânia que, confesso, me deixou um pouco invejoso. Um aplauso!.... Oi?! Estão agora a dizer-me que aquilo afinal não era uma peça de humor, era mesmo uma notícia... a sério?!... Bem... ok... 

Mas nem só de humor e de manchetes vive um bom jornal, não senhor! Um bom jornal precisa também de cronistas, uma raça pela qual nutro especial apreço, na medida em que me fazem sentir uma comichão raríssima, muito semelhante a urticária ou a limpar o rabo em urtigas.

Os cronistas são, na sua maioria, pessoas extremamente sábias e, consequentemente, escrevem artigos carregadinhos de sapiência, nos quais pululam as respostas para todos os problemas mundiais, ao mesmo tempo que educam o pobre e inculto mortal que os leia. Como este aqui do preclaríssimo César das Neves, no Diário de Notícias:

“A democracia está a passar por um momento muito perigoso. Não só a crise mundial favorece os extremismos, mas o sucesso chinês revela um modelo alternativo, mostrando que se pode atingir a prosperidade sem liberdade.”.

Oi, então não querem ver que o César está aqui a fazer um apologismo da ditadura? Não, não pode ser... devo estar a interpretar mal, logo um senhor tão distinto e inteligente como ele...não.. devo estar enganado, ora deixa-me cá continuar a lêr:

“As futuras gerações vão ser tentadas a abandonar aquilo que para nós é um consenso evidente. Estes nossos anos podem acabar na História como episódio isolado de uma bela experiência política”.

Pois... bem me parecia que estava enganado, ele afinal está é receoso que a democracia acabe... mas... porquê? Porque teme o César que a Democracia cesse de existir?

Porque “É na sua própria fragilidade que a democracia encontra os maiores perigos”!

Ah bom! E então que perigos são esses óh César?

“Portugal aprovou a lei do casamento de pessoas do mesmo sexo”

... Ok... não estou a conseguir seguir o teu raciocínio César, que perigo pode trazer isso à democracia?

“Num país em convulsão com crise e desemprego, os parlamentares juntam-se momentaneamente, o Tribunal Constitucional cede à ideologia, o Presidente lava as mãos como Pilatos e muda-se a definição de casamento (…) Se até o casamento mudou assim, o que é que está a salvo?”

Epá, óh César, não estarás a exagerar um pouco? Não foi esta decisão uma atitude democrática e vanguardista?

“A atitude de fundo que os suporta é a apoteose do narcisismo, fechado à fecundidade e centrado no prazer. A actual visão dominante do casamento, de qualquer sexo, é hedonista, precária, egoísta. Mas esta tolice ideológica não durará muito, como não duraram os delírios das gerações anteriores que hoje tanto nos desgostam. Apesar dos ataques, a verdade da família, baseada numa doação mútua, estável e fecunda, resistirá. Aquilo que no processo pode desaparecer é a nossa democracia, sacrificada, como no século XX, no altar da arrogância dogmática”

Ah... ok... pois... ainda bem que existem artigos como os teus para nos educar a todos. Bem haja!

E pronto, é por isto que eu adoro jornais.