Antes de mais, vou fazer um ponto prévio (reminiscências da passagem pelo Abrupto): não sou guloso. No entanto, gosto bastante de gelados. De entre todos os gelados, tenho especial apreço pelo Calippo de Morango.
Acontece que, ou por terrível perfídia, ou por retorcido sentido de humor do seu criador, o Calippo de Morango é aterrorizante para qualquer homem. O Calippo de Morango, caso não tenham reparado, assemelha-se muito na forma e, em certa medida, na côr, a uma parte da anatomia masculina que, normalmente, está reservada apenas para uso feminino. Mas isto, por si só, não constitui o busílis do questão. É que, não contente somente com a gag da forma e da côr, o criador do gelado lembrou-se que, giro giro, era embrulha-lo de tal maneira que, para o degustar, uma pessoa teria de levar a cabo meia dúzia de malabarismos labiais, normalmente semelhantes a um certo exercício sexual, por mim muito apreciado.
Ora, isto não se faz!
É horrível ires na rua e veres um homem, casado e pai de filhos, com barriga proeminente e bigode farfalhudo a efectuar algo semelhante a um fellatio numa “glande” de gelo. E não é só horrível para ti! O próprio homem, quando nota que o olhas, parece pedir desculpa com o olhar “eu sei... eu sei... mas está tanto calor...” pensará ele.
E depois, todos os Verões é o mesmo. O calor começa a apertar, a boca começa a ficar seca, olho em volta e vejo um café, entro para pedir um gelado, o meu gelado favorito, o Calippo de Morango! Dirijo-me para o balcão, o tempo parece abrandar, o coração começa a bater descompassado, uma gota de suor escorre-me da testa, o dono do café olha para mim de soslaio, quase ouço os seus pensamentos “mais um maricas que vai pedir um Calippo de Morango! No meu tempo não havia nada disto, os homens bebiam vinho, as mulheres não vestiam calças e o Carlos Espada não escrevia crónicas!”, a música de O Bom, o Mau e o Vilão entra em cena "fiuiuiu uauaua... fiuiuiu uauauA!", um fardo de plantas secas passa ao longe, o dono do café pergunta “o que deseja?”, sinto o chão a fugir de baixo dos pés, a voz falta-me, penso na vergonha de pedir um Calippo de Morango, é então que me sai “uma Super Bock , se fizer favor!”. E pronto, lá começa mais uma tarde de copos!
Maldito sejas criador do Calippo de Morango, pois me condenas ao alcoolismo!
P.S.- Ao longo deste texto escrevi "Calippo de Morango" 8 vezes, com esta 9. Se, depois disto, a Olá não propuser patrocinio, só poderá ser por pura mesquinhez.
